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BANCA – PARTE II

No artigo anterior, focamos sobretudo na banca de investimento.

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No presente artigo, vamos continuar com a análise ao sector bancário, no entanto,  vamos focar na banca comercial

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BANCA COMERCIAL – OS DRIVERS PRINCIPAIS

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Como indicamos no anterior artigo, a banca comercial tem 2 fontes principais de receitas, e uma fonte principal de “perdas”.

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Olhando para estes pontos e para a sua tendência, podemos provavelmente intuir o sentido mais do sector bancário, se para norte, ou se para sul.

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Vejamos então as suas fontes de receitas e claro de perdas!

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FONTES PRINCIPAIS DE RECEITAS:

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1- TAXAS TAXINHAS E TACHOLAS

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Desde o início do quantitative easing no mundo (2011 a 2022), mas, sobretudo na europa, uma das principais fontes de receitas da banca, que são as margens financeiras dos empréstimos decaíram de uma forma abrupta.

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No entanto, para conseguirem manter-se em “pé” e conseguirem alguma rentabilidade, a banca comercial começou a cobrar taxas aos seus clientes por vários serviços que antes eram gratuitos,  de forma a compensar a queda da receita dos empréstimos bancários.

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Essas taxas taxinhas e tacholas são várias, desde taxa de manutenção de conta, taxa de uso de cartão de debito, prestação de serviços vários, envio de resumo de transações em papel, levantamento ou deposito de dinheiro em balcão, Etc

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Podem verificar isso mesmo, por exemplo no relatório trimestral de um dos principais bancos comerciais portugueses, que é o caso do Banco Comercial Português

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Reparem na imagem em baixo em que mostro um relatório de 2021 de um banco, quando a taxa de juro na europa é de 0% e a seguir mostro o relatório do 3º trimestre de 2023 em que a taxa de juro é de 4%:

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Relatório  trimestral de 2021 – taxa de juro de referência 0%

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Como podem verificar, neste caso, em que a taxa de juros de referência é 0%, as margens financeiras são relativamente pequenas e as taxas e taxinhas correspondem a quase um terço do resultado financeiros.

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Agora reparemos, a mesma situação, mas numa fase em que a taxa de juro de referência é de 4% na europa (3º trimestre de 2023)

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Relatório  trimestral de 2023 – taxa de juro de referência 4%

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Em questão de taxas e taxinhas, as mesmas não variaram muito, mas reparam nas margens financeiras que quase dobraram.

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Embora as taxas representem entre um terço a um quarto das receitas totais, essas taxas são quase contantes e podem não variar muito, pelo que o grande driver na Banca Comercial são as margens financeiras, e claro as imparidades, mas vamos falar disso mais á frente!

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2- MARGENS FINANCEIRAS OU TENDENCIA DA TAXA DE JURO DE REFERÊNCIA

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Para entendermos o impacto das margens financeiras nos resultados empresariais da banca comercial, temos de entender o que é o efeito de caixa!

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“O Efeito de Caixa!

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Um banco quando recebe um empréstimo, deve por lei guardar 10.5%  desse valor (8% + 2.5% de reserva) e pode “emprestar” o restante, isso significa que com 1 euro nos seus cofres, pode “criar”  quase 9 euros do nada.

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nota à parte: a convenção de Basileia III, ainda indica que a instituição além de guardar 10.5% do dinheiro depositado, deveria ter uma almofada de 0% a 2.5% do dinheiro emprestado, dependendo do banco central em questão) o que pode trazer volatilidade, quando haja “Bank runs”, mas já vamos falar de alguns destes casos mais recentes!

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Também com a norma da Basileia III, ao deter contratos de futuros de ouro, já não “valem” para garantir estas margens de segurança (penso que os reguladores tem medo de que haja “alternativa” à moeda fiat deles, e fazem tudo por tudo para que o ouro não seja uma alternativa “legal”)

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Ou seja, se o banco comercial receber 1% de taxa de juro de um empréstimo, na prática, está a receber 10% relativo aos seus depósitos, pois criou 9€ do “nada”.

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Como podem reparar, conseguiu quase multiplicar por 10X as suas receitas com empréstimos.

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Isto na prática, significa que o sistema monetário tem 9X dinheiro que foi criado do nada (literalmente do ar)!

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Por isso, é muito importante que os clientes não queiram reaver o seu dinheiro ao mesmo tempo, porque na prática o banco só tem guardado 1/9 do dinheiro depositado.

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Mas vamos á parte mais importante:

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Se com 1% de juro, está a receber 10%, então se o juro de referência subir de1% para 2%, o juro que o banco está a receber, não é de 12% (10+2%), mas sim de 20% e assim consecutivamente.

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Ou seja, subidas das taxas de juro de referência, podem fazer subir os lucros dos empréstimos e as respetivas margens financeiras.

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Por isso, quando colocamos o preço das ações bancarias comerciais lado a lado, podemos intuir que pode haver correlação!

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Repara na imagem de baixo, onde temos o Banco comercial português (linha preta) , O banco espanhol Santander (linha laranja) e o Italiano Intesa San Paolo (linha azul)

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Como verificam na imagem de cima, estes 3 bancos de referência de países distintos, estão correlacionados entre si, mas, se repararem em baixo, onde coloco mais um elemento no gráfico que são os juros de referência de 10 anos da Alemanha verão algo que vão ficar de boca aberta

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Como veem na imagem de cima, oque veem é uma correlação com as taxas de juro

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Como indicamos anteriormente, se os juros sobem, os bancos podem cobrar mais pelos seus empréstimos, e pelo efeito de caixa, significa que por cada 1% que sobe a taxa de juro de referência o banco pode conseguir ganhar até 10X esse valor.

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Mas se os juros de referência caírem, o efeito contrário também pode acontecer!

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Agora, vamos reparar num outro pormenor, nesse mesmo gráfico que apresentei em cima.

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Veem uma temporalidade em que as taxas de juro estavam a subir, mas as ações bancarias estavam a cair, nomeadamente entre fevereiro de 2022 e  outubro de 2022.

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O que aconteceu aqui?

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Na prática o” calcanhar de Aquiles” do sector bancário comercial: As imparidades chamadas normalmente de NPL (non perfoming loans)

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FONTES PRINCIPAIS DE “PROBLEMAS” OU DE PERDAS

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  1. O CRÉDITO MAL PARADO

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Como vimos em cima, entre fevereiro de 2022  a outubro de 2022 as yields dos juros de referência na Europa estavam a subir, mas as ações bancarias estavam a cair, isto na minha humilde opinião, devido a um grande medo de recessão na europa que fizesse aumentar as imparidades de crédito (crédito mal parado, chamado normalmente de “non perfoming loans”)

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Em fevereiro de 2022 a Rússia ataca a Ucrânia e isso faz multiplicar por 10X o preço do gás natural, que é a principal matéria-prima  usada nas empresas químicas e siderúrgicas alemãs, e é o gas natural que nesse momento “precificava” os preços da eletricidade no consumidor final, além de um aumento do  preço do crude a níveis históricos, aumentando assim a inflação.

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O mercado pensando que este aumento da energia e inflação, poderia causar graves danos á economia alemã, que é  motor da europa, pode ter antecipado o aparecimento de uma recessão e um aumento do desemprego.

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Um aumento de desemprego e recessão, normalmente faz aumentar os casos de numero pessoas que não pagam os seus créditos, fazendo com que haja um aumento das imparidades de crédito, e isto pode trazer perdas brutais para a banca comercial.

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Só quando o preço da energia, nomeadamente do gás natural, e petróleo, começam a cair em outubro de 2023, o mercado começa a dissipar uma recessão no horizonte, e a banca comercial começa a acompanhar as subidas das taxas de juro.

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Nota importante: temos visto nos relatórios trimestrais da banca comercial, que anda a  limpar os seus balanços e mostrar uma cara mais risonha quanto a imparidades se trata,!

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Isto, porque estão a vender a sua carteira de crédito mal parado a terceiros, como podem ver na notícia em baixo e assim podem mostrar uma “cara mais limpa”

https://www.jornaldenegocios.pt/mercados/credito/detalhe/santander-prepara-venda-de-carteira-de-cinco-mil-milhoes-em-credito-malparado

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Assim sendo, além de analisarmos a tendência da taxa de juro de referência, também devemos analisar a tendência do crédito mal parado, embora, como disse anteriormente, a banca esteja a limpar este item dos seus balanços

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  • BANK RUN

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Como indiquei anteriormente, devido ao “efeito de caixa”, um banco só guarda no mínimo 10.5% dos depósitos dos seus clientes, emprestando (ou investindo) o restante.

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Caso uma grande parte dos clientes quisesse levantar ou transferir o dinheiro que tinham nesse banco ao mesmo tempo, como o mesmo não pode pedir de volta o dinheiro que emprestou (ou investiu), teoricamente esse banco pode ir à falência, porque não consegue devolver o dinheiro que lhe foi confiado.

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(no entanto os bancos centrais dão linhas de crédito a estes bancos de forma que arranjem solução para o problema, como vamos ver mais á frente!)

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Por isso, quando uma pessoa quer fazer uma grande transferência de dinheiro ou levantar uma determinada quantia, tem de informar previamente o banco, de forma a dar tempo ao mesmo recoletar de novo esse dinheiro.

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No entanto, há um caso caricato que aconteceu em março de 2023 que mostra que um banco pode ir à falência, mesmo não emprestando dinheiro e unicamente investindo em letras do tesouro líquidas que pode resgatar quando quiser e que são consideradas “libre de risco” (risk free)!

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O CASO DOS BANCOS REGIONAIS AMERICANOS 2023

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Nos estados unidos, o quantitative easing, começou primeiro que na europa, nomeadamente em 2011, isso fez com que a taxa de juro de referência caísse para mínimos muito baixos (perto de 0%).

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A Banca comercial americana, poderia ter arranjado a mesma solução dos bancos europeus, que foi aumentarem as taxas, taxinhas e tacholas aos seus clientes.

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Mas, como o dinamismo empresarial americano é muito superior ao europeu, isso poderia fazer com que as pessoas retirassem o dinheiro desse banco e depositassem em outro que não cobrasse tantas taxas.

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Assim sendo, a banca comercial americana, nomeadamente a regional, arranjou outra solução, mas que no final ditou o fim dessa banca (inclusive o banco fundado por Leman Safra o gigante banqueiro de origem brasileira O First Republic Bank de Nova york)!

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Na prática, não cobravam taxas taxinhas ou tacholas, também não davam juros sobre os depósitos, e por incrível que pareça, também não emprestavam dinheiro, mas investiam esses depósitos em letras do tesouro de longo prazo (10 anos para cima)

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Parecia que estavam sólidos e libres de qualquer problema não era? Mas, a verdade era totalmente diferente!

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As letras do tesouro americano (obrigações do estado norte americano), são consideradas libre de risco porque além dos estados unidos serem de longe a economia mais forte do mundo, os estados unidos podem imprimir a sua moeda quando quiserem (dinheiro não irá faltar), e além do mais, o dólar é considerado como a moeda refúgio do mundo! Quando há problemas económicos, todo o mundo quer dólar em vez das suas moedas locais!

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Na altura, a rentabilidade dessas letras de tesouro davam uma rentabilidade perto de 2%!
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Era pouco, mas, era algo que dava algum lucro, e o melhor de tudo é que como se tratava de obrigações do tesouro norte americano (risck-free), a legislação permitia que nos seus balanços poderiam colocar o “valor de face” dessa obrigação “do fim da maturidade” e não a cotação que valia no mercado nesse momento, assim, os relatórios não indicavam nenhuma perda por efeito mark-to-maker.

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Vou explicar melhor, pois parece chinês:

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Quando compras uma obrigação do tesouro, pagas um valor por ela ( exemplo 1000€), mas no final da maturidade, recebes essa quantia de volta, mais um juro associado.

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Exemplo:

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Se compras uma obrigação de 10 anos com uma yield de 2% por 1000€:

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Ao final de 10 anos recebes os 1000€ de volta, mais 2% de juro/ano ou seja 20€/ano

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No entanto, essa obrigação que valia 1000€ na altura que a compraste, pode valer por exemplo só 500€ passada uma semana, caso a taxa de juro de referência ou real suba ou caso haja volatilidade do mercado.

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Assim, se quiseres recuperar de novo o dinheiro sem esperares os 10 anos da maturidade, só vais receber 500€ em vez dos 1000€ (estou a fazer um exemplo)

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Foi exatamente que aconteceu com a banca regional americana, nomeadamente o Sillicon Valley Bank, Signature Bank, First republic Bank,etc) em março de 2023

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De um momento para o outro, as pessoas começaram a pedir o seu dinheiro de volta, e como esses bancos tinham investido esse dinheiro em letras do tesouro, ao venderem esses títulos, para devolverem os depósitos aos seus clientes, ficaram com perdas e estes Bancos tiveram de fechar porque não tinham dinheiro suficiente para devolver o dinheiro a todos os seus depositantes.

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Vamos contar os rumores que circularam, e vão ver que o mercado está cheio de falcatruas…

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Na prática tudo “começou” no Sillicon Valley Bank em março de 2023

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O Sillicon Valley Bank, era conhecido por ser o banco onde as startups colocavam o seu dinheiro, ou seja, se fosses uma startup de San Francisco, o mais normal é que depositasses o dinheiro nesse banco, pois era quase uma “norma” no vale do silício.

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É verdade que essas startups não recebiam juros do dinheiro depositado, mas também não pagavam qualquer taxa pelos serviços prestados pelo banco, que eram múltiplos e favorecia a rede de contatos e networking.

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Num ambiente de taxas de juro baixas, as startups, conseguem facilmente financiamento através de investidores anjo, e tem muito dinheiro depositado nos bancos, mas em 2022, os estados unidos, começam a subir os juros, e as startups começam a ter dificuldades de financiamento (os investidores anjo começaram a “cortar” na injeção de dinheiro nas startups), tendo de levantar o dinheiro que tem nos bancos de forma a pagar os altos salários dos seus trabalhadores e as rendas dos seus escritórios.

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“Reza a lenda”  ou há “o rumor” ,que um “investidor anjo” muito conhecido no meio, que investiu em muitas startups no vale do silício, recomenda que essas startups levantem todo o dinheiro que estava no Sillicon Valley Bank, e coloquem em outro banco…e como no “vale do silício” toda a gente se conhece, os rumores se espalham rapidamente e há um Bank RUN.

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As startups começam a levantar o dinheiro e o Silicon Valley Bank é obrigado a vender com perdas as obrigações, de forma a restituir o dinheiro aos seus clientes.

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Esta fuga de capitais, levanta o medo no mercado, e toda a gente começa a olhar e a procurar a próxima vítima, fazendo com que vários bancos sofram uma saída de depósitos brutais, fazendo com que tivessem de vender as obrigações com perda.

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Nesse mês (em menos de uma semana), perto de 3 bancos são fechados e vão a falência (outros tantos, são absorvidos por gigantes) como por exemplo:

  • Sillicon Valley Bank,
  • Signature Bank,
  • First republic Bank, etc.

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Só para entenderem, comparativamente, o Banco comercial português é uma formiga comparado com o Sillicon Valley Bank.

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Estamos a falar de muito dinheiro em jogo!

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Para onde iam os depósitos desses bancos? Para os de sempre do costume :

  • JP Morgan, Goldman Sachs etc (os Bancos de investimento)

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Ou seja, quem ficou a ganhar com esta crise foram os “papões” do lugar!

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Neste tempo todo, o banco central americano deu créditos temporários a estes bancos regionais, de forma a poderem dar liquidez á retirada dos depósitos e pela primeira “vez na história” disseram que todo o dinheiro depositado nesses bancos, estaria garantido pelo Banco central.

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Que não haveria perda para os depositantes, inclusive empresas!

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Reparem como isto é muito importante!

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Até 2008, os depósitos bancários estavam assegurados até 20.000US, no entanto, com o colapso da banca em 2008, de forma a dar confiança às pessoas para deixarem o seu dinheiro na banca e não nos seus colchões, elevam o montante assegurado para 50K e depois para 100K na europa, mas nos usa elevam o dinheiro assegurado para 250.000US

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Ao não haver limites de deposito assegurado, isto significaria que os banqueiros centrais poderiam estar em pânico ou com medo, pois podiam temer que se um depositante perdesse dinheiro, isso fizesse uma correria geral, e todo o sistema bancário poderia ir à vida!